Cuidar na Família

A família mudou. A sua importância não.
15/05/2019
Família
15/05/2019
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Cuidar na Família

Cuidar na Família

Se me é difícil falar, escrever ainda custa mais…

Dizem que quando perdemos alguém o tempo ajuda, ainda não sinto nada disso e fez em Janeiro 3 anos. Talvez porque o sofrimento tenha sido enorme, quer o da Mãe, quer o nosso. Talvez por ter visto o pilar da minha Vida definhar de dia para dia, sempre agarrada à vida! Talvez por os papéis se terem invertido e, de repente, eu ter que tomar conta da minha Mãe, dar-lhe a comida à boca, mudar-lhe as fraldas, ter que me zangar muitas vezes para que tomasse os proteicos, os medicamentos ou simplesmente bebesse água.

Foi tudo muito duro desde o momento em que soube que o AVC era muito grave, mas também existiram trocas de Amor incríveis.

Agradeço ao meu irmão e acredito que Deus o colocou novamente em casa da Mãe, depois de um divórcio e de ter perdido o emprego, porque se não fosse ele, jamais conseguiríamos concretizar o desejo da minha Querida Mãe que era ficar em casa e não ir para um lar.

As nossas vidas mudaram, aliás deixámos de ter vida para vivermos em prol da minha Mãe ao longo de quase 4 anos.

As maiores dificuldades foram as de encontrar alguém em quem confiar.

Apareceu-nos de tudo. Pessoas com CV, mas sem prática. Pessoas com prática, mas sem jeito, pessoas com jeito mas que usaram e abusaram da nossa necessidade. Pessoas que trataram mal a minha Mãe, pessoas que roubaram os bens da minha Mãe ao ponto de serem apanhadas com sacos cheios nas escadas, pessoas capazes de tudo…

Ao mesmo tempo apareceriam anjos na nossa vida e na vida da Mãe.

Posso falar da Ana, da D. Mimi, das Senhoras da Igreja, do Senhor Padre Casimiro que, quando chegavam, eram Luz que entrava naquela casa. A casa onde cresci, mas que virou um Hospital. Literalmente um Hospital, principalmente nos últimos meses de vida.

Ainda hoje não sei como conseguia gerir tanta coisa. Os dias começavam muito cedo para que nada falhasse. Deixei de conseguir dormir profundamente, o meu sono passou a ser de alerta e, sempre que o telemóvel tocava, entrava em pânico com receio que fosse o meu irmão com más notícias.

Tenho que agradecer aos vários médicos que trataram da minha Mãe, não me posso queixar, nem mesmo da médica que lhe retirou o Varfine, e que, mais tarde, foi a causa desse fatal AVC, porque vi aquela médica dar tudo para recuperar a minha Mãe depois desta ter estado um mês e 4 dias ligada ao ventilador.

Serei eternamente grata ao Dr Tiago Judas que, para além de ser um excelente profissional, tem um lado humano muito desenvolvido.

Era tão bom que os médicos percebessem a importância de desenvolver o seu lado humano para nos ajudarem a encarar a Dor de saber que vamos perder aqueles que amamos.

A nossa sociedade não nos prepara para a morte. Mesmo quando ela está iminente… Mesmo quando somos nós a perceber que é o melhor que pode acontecer…

Hoje penso muitas vezes até que ponto fui egoísta por ter feito tudo, tudo, tudo para não deixar a minha Mãe partir.

Como me sabia bem ouvi-la dizer que não queria ir embora, por causa do Amor que nós lhe dávamos…

Outra das grandes dificuldades, foi a nível financeiro.

Só quem passa por isto, sabe o dinheiro que é preciso para darmos o máximo conforto a quem amamos.

Quando dizem que o dinheiro não traz Felicidade, acho que as pessoas não sabem bem o que dizem, pode não trazer a Felicidade a outros níveis mas, no que respeita à Saúde, ajuda e ajuda muito.

Era só eu a trabalhar, o meu irmão estava desempregado e já sem direito a receber subsídio de desemprego.

Aqui eu percebi a importância do Estatuto do Cuidador. O trabalho dele devia ser reconhecido. Esteve dia e noite a tomar conta da Mãe. Eu vivia longe e muitas vezes atravessava a ponte duas ou três vezes por dia para estar presente nas horas das refeições porque achava que comigo a Mãe comia mais uma colher ou duas. Quando não estava em casa a puxar o máximo possível pela Mãe, a dar-lhe força, mimo e coragem, estava à procura de tudo o que era necessário a um preço mais acessível

Ia à Santa Casa da Misericórdia comprar os resguardos e os produtos de higiene, ia a Liga dos Amigos do Hospital comprar os proteicos, às grandes superfícies ver se havia promoções nas fraldas…

Enfim , não parava .

Depois ainda tinha que ir ao Hospital com a Mãe e, também aqui, apareceu outro anjo nas nossas vidas que nos ajudava em tudo o que podia e, muitas vezes, no que não podia, que tinha a ver com pedidos aos médicos, aos enfermeiros, e a quem fosse preciso e a organizar toda a logística de Ambulâncias.

Eu tinha de deixar tudo preparado, de ir ao médico de família buscar requisições, receitas, solicitar a ida da Sra. enfermeira lá a casa para observar as escaras e fazer os pensos, ir ao laboratório de análises clínicas solicitar outro enfermeiro para fazer as análises que passaram a ser quase diárias… Uma dor enorme porque a Mãe já mal tinha veias para serem picadas.

O meu escape era o trabalho. Enquanto estava a trabalhar, não estava tão focada em todos estes problemas, porque de resto só pensava nisto. A minha cabeça não parava.

Como já disse em público, o fazer parte do nascimento da SIC Caras e, com o canal, o Passadeira Vermelha foi a melhor coisa que me aconteceu.

Foi o meu escape! A minha tábua de salvação!

Hoje lamento muito que a minha Querida Mãe nunca tenha visto um programa do Passadeira. Tinha televisão no quarto, ficava a olhar, mas eu sei que não sabia o que se estava ali a acontecer.

A Mãe sempre foi muito crítica comigo e teria sido muito importante para mim, ter ouvido a sua opinião… Infelizmente não aconteceu, como não aconteceram tantas outras coisas que eu pensava que ainda íamos vivenciar todos juntos.

Achamos que tudo dura para sempre, e de repente, a vida troca-nos às voltas e já nada volta a ser como era…

Sei que o melhor que aconteceu à minha Querida Mãe foi ela ter partido. Está em Paz! A descansar! Um dia estaremos novamente juntas.

Acredito verdadeiramente que, aqueles que amamos, nunca morrem, apenas partem primeiro…

A seguir à sua partida ficou uma Dor enorme e um vazio profundo.

Eu, que tantas vezes me queixava que não tinha tempo para isto ou para aquilo, passei a ter tempo, mas não sabia o que fazer com ele. Aliás não queria fazer nada…

Hoje passei a estar mais com os amigos e a viajar que foi sempre uma das minhas grandes paixões. Sempre que posso, lá vou eu…

Luto para tirar as imagens de Dor e Sofrimento dos últimos anos da minha Mãe da minha cabeça e substitui-las pelos momentos de ternura, amor, doçura que partilhamos ao longo de toda uma vida. Mas não é fácil. Foram anos muito marcantes. Quero recuperar. Quero sentir que o meu irmão também recuperou. Parece que este ano vai finalmente conseguir um emprego e deixar os trabalhos pontuais que conseguiu arranjar.

Acabei de chegar de uma peregrinação a Fátima onde pedi à Nossa Senhora coragem para conseguir ir mais vezes à casa da minha Mãe e fazer uma escolha grande daquilo que já não precisamos e dar a quem tanto precisa.

Depois da partida da Mãe, dei quase tudo, mudei a disposição da casa para atenuar a lembrança de que ali esteve montado um Hospital. O objectivo até foi conseguido mas, aos poucos, deixei de conseguir entrar e ficar. Tenho que ultrapassar tudo isto, porque não faz sentido.

Aliás, há muita coisa que tem que ser ultrapassada, porque entrei numa depressão, e numa pré-menopausa. Estou a ser bem acompanhada.

É altura de tratar de mim, porque a verdade é que não devemos mas, quando somos apanhados numa situação destas, a tendência é darmos tudo e esquecermos que também existimos, e que não somos de ferro. Não há super-heróis.

Liliana Campos

Apresentadora de televisão

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