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A caminho do Natal

A caminho do Natal

Estamos já em caminho descendente para o Natal! Ensinados a abrir o coração, e a ouvir Deus no ruído, na correria, na eterna lufa-lufa em que existimos hoje, fazer silêncio será indispensável para O sentirmos chegar, mas… será que somos capazes? Teremos nós a sabedoria de travar o remoinho de sons, cores, luzes e gentes que nos preenchem nestes dias, para deixar fluir em nós a Sua voz? E não teremos nós medo de nos permitirmos sermos confrontados com a famosa e pertinente dúvida que Jesus adulto nos coloca hoje, como o fez ontem, como o fará de novo amanhã?

  • «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
    Sim, nesta interrogação direta que Ele nos põe, cresce em nós a inquietação! Jesus fala inequivocamente connosco! Dou por mim muita vez a tentar responder a esta pergunta, tão direta, e tão aberta a tudo… E, diariamente, tento responder a este desafio, mesmo sentindo que pouco ou nada sei de religião, de fé e de Deus, para encontrar a resposta a este mistério do encontro entre o céu e a terra, Deus e o meu ser, que, no tempo do advento, sonhando com o Natal, se torna muito mais premente!
    Estamos mais uma vez à espera, aguardamos o nascimento de um bebé que nos veio abrir a porta para o céu! – Este, é um tempo especial, tempo de recolhimento,de interiorização, que nos é dado para nos preparararmos para a vinda deste bebé – Senhor, que representa o amor, a serenidade, e a paz em cada coração, – e, tal como o fazemos com as nossas casas ao receber os amigos, somos convidados a limpar o coração de tudo o que nos distancia de Deus no resto do ano, mas também sentimos o pedido de construir em nós um mundo novo, revestindo tudo de tolerância, paciência, alegria e esperança! Enfeitamos as casas porque vamos abrir-nos a Deus, queremos tudo num brinquinho para O receber no dia 25!
    O Natal, para crentes e descrentes, está associado a festa, cor, música, família: – e para mim é um dia muito especial – ao congregar à volta da minha mesa os que me são queridos, imagino que Jesus menino festeja connosco e fica feliz! É um tempo de união (mais do que de reunião), em que fazemos tréguas, enterramos os machados, e cultivamos sementes de paz nos outros e em nós mesmos, porque, Jesus assim no-lo inspira! Partilhamos conversas, risos e cânticos à volta da mesa e do presépio, para cativarmos o menino Jesus e porque Ele nos cativou também!
    Os cânticos são a nossa oração,e a nossa homenagem – ao ouvirmos o Silent Night, ecoa em nós a beleza do nascer de uma criança na solidão, na pobreza e na humildade de uma gruta onde o amor é palpável – Deus veio até nós neste bebé que iluminou o mundo inteiro! Emanuel, Deus connosco, fez-se igual a nós para que nós o aceitássemos e o procurássemos.
    Nasceu no pós-sondagem que o anjo veio fazer a Maria e a José – cada um deles foi convidado a aderir à vontade de Deus (sendo livres de recusar), e ambos quiseram dizer SIM, e, confiadamente se deixaram guiar num terreno cheio de perguntas, e apenas uma resposta – Deus quer assim! E desta escolha consciente e meditada dos dois que nos trouxe Jesus, abriu-se escancarada uma porta para Deus-Pai Nosso!
    A sagrada família em que Jesus cresceu serve-nos de exemplo a todos – olhando para ela aprendemos a ser tolerância, diálogo, aceitação, perdão, paz e amor – Este Pai que tudo sabe, ensinou-nos assim com uma singela familia o sentido do amor – o testemunho de Maria e de José, unidos no amor e por amor, mostra-nos como todos nós devemos viver em família, mas, também revela ao mundo onde falta cada vez mais esta capacidade de amar e ser amado… o quão necessário é o amor!
    O cónego João Aguiar Campos, que incluo no restrito grupo de gente que me quer bem e a quem chamo amigo, escreveu há tempos que… «Cada dia é um desafio, um pedaço de caminho. Cada dia somos chamados a construir, a corresponder, a colaborar com o sonho de Deus que espera o contributo da nossa fragilidade».
    Reconhecendo a minha fragilidade total, esta tarefa de falar de Deus vendo Jesus como ponto de partida, é-me difícil pois cada um de nós pensa e olha Deus de formas diferentes! Mas, recorrendo ao diálogo com os especialistas que me rodeiam, em especial com o padre João, e agarrando alguns textos dele como este excerto que aqui deixo:
    «É possível o sonho da pureza inicial conversada em tardes de paraíso.
    Porque te fizeste, Senhor,
    um de nós,
    moldando de novo todas as coisas!» Agarrando e meditando todas estas ajudas, aprendo a ver Deus no mundo.
    Deus está no meio de nós, Deus está no sorriso do outro, mas está também na flor que desabrocha ao sol, na gota da chuva pousada na teia da aranha, na sinfonia do vento deslizando por entre os ramos das árvores, na lágrima partilhada, no ouvido atento, no ombro encostado…
    Deus, que veio ter connosco no seu filho Jesus, habita neste mundo em que todos vivemos, instala-se em mim/nós e desafia-me/nos constantemente (não duvido que muita vez Ele me chama e eu não ouço – a nossa vida tem tanta solicitação, que se não fizermos um esforço facilmente O esquecemos!) A nossa sorte é Ele ser o melhor e mais atento dos pais, quando andamos assoberbados com a vida, Ele insiste e persiste, até nos darmos conta da Sua presença!
    O advento é pois o tempo especial de preparação para O acolhermos, um tempo de pacificação pessoal, de escuta, de atenção a todos e a tudo – é-nos dada a possibilidade de agir, de marcarmos de uma forma positiva a existência dos que connosco se cruzam! Este menino Jesus que nos entra pela casa dentro no mês de Dezembro, traz-nos o sentido do amor incondicional que tudo suporta, tudo entende e tudo perdoa, oferece-nos a alegria de fazer o outro sorrir, permite-nos crescer interiormente sempre que damos de nós, sem estar à espera de receber!
    A sagrada família de Nazaré ensina-nos que o amor é indispensável numa família, que cada família tem potencial para dar amor, paz e alegria ao mundo. E, é neste amor que eu descubro em Jesus pequenino, deitado nas palhinhas, que venço as dificuldades que a vida me traz!
    Todos nós queremos ser felizes, sonhamos e idealizamos uma vida perfeita! – A realidade não vem com essa perfeição, mas se virmos o mundo pelo olhar de Jesus, se pensarmos em tudo o que nos acontece, se aceitarmos que em todas as lágrimas e em todos os risos, Deus está presente, sentiremos sempre que estamos de mão dada com Ele! Eu gosto de pensar Nele pequenino, mas também podemos vê-lo adulto, ouvindo os nossos desabafos… O que Deus me/nos pede é que o deixemos fazer vida connosco, e essa é uma decisão só nossa! Desde o momento em que nasce numa manjedoura, até ao adeus na cruz, Deus está aqui – em Belém uma estrela guiou os reis magos; agora, é Jesus essa estrela que nos ilumina o viver! Como escreveu o padre João «Deus é o amor que não se esgota, eterna e gratuitamente apaixonado. Presente em todas as provas, espera que as encaremos como oportunidade de dar testemunho»!
    Cabe-nos a nós a escolha desse «dar testemunho» na nossa casa, no nosso condomínio, no nosso trabalho, na nossa paróquia, na nossa família,com os nossos amigos e com os que connosco se cruzam. Para isto nasceu Jesus, por isto Deus veio até nós, e apenas nos é pedido que o acolhamos, que o descubramos no outro! – se o conseguirmos encontrar, transformamo-nos e ajudamos a transformar o mundo.
    Noite feliz, noite de amor
    o senhor, Deus de amor,
    pobrezinho nasceu em Belém,
    eis na lapa Jesus nosso bem!
    Dorme em paz, ó Jesus…
    dorme em paz, ó Jesus.
    Neste novo advento peço a Deus a sabedoria de, guiada por Ele, oferecer paz a Jesus, num silêncio que O deixe repousar! Deus também se cansa! O amor é exigente!
    Feliz Natal apesar da pandemia – o mundo não era perfeito quando Ele nasceu, nem o é agora, mas Ele continua a nascer todos os dias em cada um de nós!

Susana Esgalhado Ferreira, ministro da comunhão na paróquia de Nossa Senhora da Boavista -Porto

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