No romance bíblico de Jan Dobraczyński, A sombra do Pai, há um diálogo fantástico quando José, profundamente doente, debate-se cheio de dúvidas sobre o fracasso de seu papel de pai naquela aventura que parece sem sentido:
«[José] — Eu tenho muitas dúvidas, tu não…
[Maria] — Eu também me interrogo, só que de outra maneira. Mas tento não me preocupar. Ele escolheu-me como sou… temos de recordá-lo, José. Há alguém que quer que o esqueçamos. Quer que pensemos que não fomos os pais de Jesus pela graça do Altíssimo, mas pelas nossas próprias forças…
[José] — Eu sou apenas uma sombra…
[Maria] — Cada homem é só uma sombra, mas o Altíssimo também dá vida às sombras. »1
O que é ser a sombra do Pai nesta história romanceada da infância de Jesus? Estar menos em destaque, ou ser apenas figura acessória, não decisiva? Mas o que é esta “sombra”? Um eclipsar da figura paterna? A aprendizagem de que ser pai é de alguma forma representar o divino para um filho, mesmo para Jesus, é a resposta a esta questão.
O Papa Francisco publicou um texto admirável em 8 de dezembro de 2020 em que retoma a imagem do autor polaco. A Carta Apostólica Patris Corde – com um coração de pai, termina com um título provocador: Um Pai na Sombra.
Com isso em nada destrói o relevo da figura parental de José eclipsada por Jesus ou por Maria. Pelo contrário, ele aparece como verdadeiro modelo humano de alguém que coloca a prioridade de sua vida o responsabilizar-se totalmente pela vida do filho. Mas o modo como o faz é a renúncia a um amor possessivo, ou ao desejo de manipular os afetos de uma criança, restringi-la ou subjugá-la. Antes, José é criativo na forma de ser pai: Ser pai significa introduzir o filho na experiência da vida, na realidade. Não segurá-lo, nem prendê-lo, nem subjugá-lo, mas torná-lo capaz de opções, de liberdade, de partir. Talvez seja por isso que a tradição, referindo-se a José, ao lado do apelido de pai colocou também o de «castíssimo». Não se trata duma indicação meramente afetiva, mas é a síntese duma atitude que exprime o contrário da posse. A castidade é a liberdade da posse em todos os campos da vida. Um amor só é verdadeiramente tal, quando é casto. O amor que quer possuir, acaba sempre por se tornar perigoso: prende, sufoca, torna infeliz. O próprio Deus amou o homem com amor casto, deixando-o livre inclusive de errar e opor-se a Ele. A lógica do amor é sempre uma lógica de liberdade, e José soube amar de maneira extraordinariamente livre. Nunca se colocou a si mesmo no centro; soube descentralizar-se, colocar Maria e Jesus no centro da sua vida. A felicidade de José não se situa na lógica do sacrifício de si mesmo, mas na lógica do dom de si mesmo. 2
Partindo de José, vale a pena recordar o que é pedido a um pai. O único protagonismo que manifesta será essa capacidade de dom de si, de um amor que faz o outro crescer, torná-lo verdadeiramente uma pessoa livre, e essa missão começa não por um contexto doméstico de convivência, mas por uma missão aceite com o nascimento de um filho. José precisou de reinventar uma relação com Maria que não passava pela intimidade física, precisou de renunciar a muitos sonhos que legitimamente aspirava. Teve de perceber que o filho era totalmente diferente dos seus sonhos juvenis. Aceitou que não era o protagonista cuja epopeia mudava toda a história do mundo. Em vez de ceder à tentação de comandar e impor, José escolhe fazer o dom da sua própria vida pelo filho de forma bem humilde, mas sempre presente. E, por isso mesmo, aceitar ser uma sombra de Deus para Jesus tornou-se tão grande na sua vida e na vida de Cristo.
Ser pai na sombra não é ser um pai apagado, esbatido ou que fica com os restos. Pelo contrário, é assumir o dom da própria vida para que o outro possa crescer. Para isso, a ternura, o amor, a proximidade da escuta, o cuidado em todas as suas vertentes, e, simultaneamente, a capacidade de estimular uma verdadeira liberdade do filho, a renúncia a tratar o outro como uma coisa sua, como um objeto dos seus caprichos. Essa é a escolha decisiva.
O divórcio será sempre uma experiência horrível para todos os envolvidos, mas mais trágica e inapelável para aqueles que são completamente inocentes: os filhos de um casamento desfeito. Nestes tempos de divórcio fácil, é possível que os membros de um casal em cisão estejam envolvidos de forma muito diferente na forma como a relação se degradou, mesmo quando de comum acordo. Mas culturalmente no Ocidente é mais fácil relegar o pai para um afastamento físico, e, em vez de ser uma sombra do divino, fica um pai esbatido, passa a ser um ausente relegado para períodos curtos e pouco significativos na vida dos filhos, cuja autoridade passa apenas pelas contas.
Qualquer separação é sempre traumática para os esposos, mas ainda mais para os filhos, mesmo que tentem parecer aceitar verbalmente. Se na decisão de afastamento dos cônjuges há tantas mágoas e sofrimentos que tornam a vida difícil, raramente os filhos são mais do que a procura de uma solução dos adultos. Com muita sabedoria a Igreja pede aos pais que nunca tornem um filho vítima dos seus conflitos.
O texto da Exortação Apostólica A Alegria do Amor, do Papa Francisco, que faz norma para a Igreja Católica é muito belo:
«245. Os Padres sinodais puseram em evidência também «as consequências da separação ou do divórcio sobre os filhos, em todo o caso vítimas inocentes da situação». Acima de todas as considerações que se queiram fazer, eles são a primeira preocupação, que não deve ser ofuscada por nenhum outro interesse ou objectivo. Peço aos pais separados: «Nunca, nunca e nunca tomeis o filho como refém! Separastes-vos devido a muitas dificuldades e motivos, a vida deu-vos esta provação, mas os filhos não devem carregar o fardo desta separação; que eles não sejam usados como reféns contra o outro cônjuge, mas cresçam ouvindo a mãe falar bem do pai, embora já não estejam juntos, e o pai falar bem da mãe». É irresponsável arruinar a imagem do pai ou da mãe com o objectivo de monopolizar o afecto do filho, para se vingar ou defender, porque isso afectará a vida interior daquela criança e provocará feridas difíceis de curar. »3
Precisamente porque um divórcio, ainda que inevitável, não elimina a realidade primordial do relacionamento pai—filho, os pais que se encontram nessa situação - uma situação na qual eles próprios geralmente estão profundamente feridos - são moral e espiritualmente obrigados a manter um forte relacionamento com seus filhos, e com todo o esforço para que as circunstâncias concretas não leve um deles a demitir-se dessa obrigação. Não podem carregar seus próprios conflitos e sofrimentos sobre os seus filhos, e nisso precisam de redobrar a atenção no modo como se situam em relação ao facto que uma criança tem sempre um pai e uma mãe. E eles devem ser sensíveis ao trauma do afastamento físico, pois isso se manifesta em diferentes estágios de seu desenvolvimento e nem sempre se consegue aferir apenas por “falar do assunto” porque são realidades emocionais que estão bem além das palavras. Ao mesmo tempo, é fundamental que os cônjuges separados mantenham uma vida espiritual forte e orante. Casas quebradas são defesas enfraquecidas não apenas contra as paixões humanas, mas contra o próprio diabo, e isso nunca deve ser esquecido por um momento. E é provável que os primeiros danos se manifestem nos filhos.
Nós somos todos obras primas em construção pelas mãos de Deus. Tenho visto que não é fácil viver como pai separado. Há muitas mágoas que se carregam. Há muitos medos da imagem que os filhos possam interiorizar em relação à figura que ficou fisicamente mais distante. Há mesmo muitas dúvidas de qual o espaço de ação que lhe fica confiado. Mesmo para quem conseguiu perdoar ao outro cônjuge e a si próprio um fracasso no casamento, em qualquer momento pode voltar o constrangimento de não estar a pisar terreno firme, um pouco como José no romance de Dobraczyński. Mas o desafio é esse amor abnegado e incondicional aos filhos. Não se pode consentir que os seus medos, os seus bloqueios emocionais e suas dúvidas sejam um obstáculo para algo que desde o princípio Deus destinou para um pai humano: ser um reflexo de Deus na vida de um filho. Pode não ser fácil, pode sentir-se menos confortável, mas é na medida em que não renunciar a essa forma de presença que mais brilhará a grandeza do ser um pai.
Dificuldades e até mesmo os sofrimentos que agora carrega não precisam de ser, com a graça e o amor de Deus, em dificuldades e traumas para sempre. Não há nada que você ou seus filhos sofram que não possa ser curado; não há lágrimas de mágoa, frustração ou tristeza que não possam ser transformadas em lágrimas de alegria com uma vida interior plena. Uma vida espiritual verdadeira e profunda há de ajudar muito a encontrar um caminho para refletir o divino na vida de seu filho, mesmo quando algum distanciamento pareça inevitável.
Revisitando a figura de José dos Evangelhos aprendemos muito. Ele precisou de muita capacidade de fazer dom de si mesmo para aprender a ser pai de uma forma tão fora do comum no mundo. Nada na sua história é um simples processo de dar largas à sua vontade pessoal como um roteiro que tivesse escrito na juventude e que era só pôr em movimento. Teve de aprender a conviver numa relação com Maria sem intimidade física. Teve de migrar para o Egipto para proteger Jesus. Teve de aceitar estar num segundo plano, dedicado ao trabalho e à família, numa vida de simples carpinteiro em Nazaré. Não lhe conhecemos discursos ou proezas senão a criatividade na forma como se tornou essa “sombra de Deus” na vida de Jesus, que ficou conhecido como o “filho de José” (Jo 6,42-46), mostrando como a paternidade divina pôde espelhar-se nessa relação de Jesus com José ao longo de toda a vida.
Sim, é preciso acreditar que o Altíssimo pode dar vida às simples sombras humanas. Os nossos percursos acidentados fazem-nos sentir apenas uma sombra frágil. Por vezes, castigamo-nos interiormente com dúvidas e hesitações, e sentimo-nos culpados por não conseguirmos ser tudo o que gostaríamos de ser. Mas há esperança, mesmo em circunstâncias difíceis. A graça que atuou em José não é diferente daquela que atua nos simples pecadores que somos todos nós: é sempre criativa, inovadora, surpreendente. Afinal, ela vem de Deus.
Robson Cruz, pároco da Igreja de são João de Deus
1 Jan Dobraczyński, La sombra del Padre, Madrid 2015, 205.
2 Papa Francisco, Carta Apostólica Patris Corde, 8 dezembro de 2020, nº 7.
3 Papa Francisco, Exortação Apostólica a Alegria do Amor, de 8 de abril de 2016, nº 245
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C Este tex coplti 1 viagem inic há mt tempo. Fiz algs trocs salts, q ag liguei. Ser pai, na sabedoria e na humildade - orgulhoso do filho?! - ser pai como José, só aconteceu uma vez. Obrigado, José.